Escola de Contas do TCMSP realiza palestra sobre Gestão de Custos na Saúde no Século XXI Notícias

07/11/2019 08:30

A Escola de Gestão e Contas do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCMSP) organizou, na terça-feira (05/11), a palestra sobre “Gestão de Custos na Saúde no Século XXI”. O evento contou com a apresentação do professor Marcelo Carnielo, mestre em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador de Controladoria da Planisa, com mediação feita pela professora da Escola de Gestão e Contas, Eliana Verdade.

Ao tratar da gestão de custos na saúde neste século, o palestrante iniciou sua fala ressaltando que o Brasil possui o maior sistema de saúde pública do mundo e que a análise e gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) deve ser prioridade, buscando eficiência na aplicação dos recursos. Para o professor Carnielo, a ideia central desse encontro foi o de entender o modo de organização de centros hospitalares e as mudanças cabíveis, visando um maior custo-efetividade.

Durante a palestra, foram levantadas informações sobre o cenário médico para entender o funcionamento da gestão de custos. Segundo Carnielo, no Brasil, de 256 milhões de habitantes, cerca de 150 milhões usam exclusivamente o SUS, com um custo anual de aproximadamente R$ 1.270 por usuário. Também foi ressaltada a diferença dos problemas nacionais de saúde entre a década de 60 e a atual, que se alteraram devido ao envelhecimento da população.

Na exposição foi pontuado que doenças como diarreia e desnutrição foram, respectivamente, a sétima e a nona causa de mortalidade em crianças de até cinco anos em 2015 no Brasil. Para o palestrante, esses problemas não condizem com o avanço médico: “Apesar de tudo aquilo que a gente fala em tecnologia, é como se a gente tivesse ainda alguns pedágios a serem cumpridos. Há muitos desafios em um país em desenvolvimento a serem enfrentados e, portanto, ocorrem situações que, talvez, nós não deveríamos ter mais, mas que ainda influencia diretamente a gestão de saúde e de custos”, disse ele.

O professor também mostrou a discrepância entre a quantidade de enfermeiros e médicos atuantes: enquanto no Brasil há 0,8 enfermeiros para cada médico, nos EUA essa diferença fica em um para cada quatro profissionais. “A gente fala muito de médico, mas às vezes nos esquecemos do profissional enfermeiro”, afirmou Carnielo. Outra diferença ressaltada durante a palestra foi quanto à distribuição de médicos pelo território brasileiro: enquanto a região sudeste registra 2,81 médicos por mil habitantes, 68,3% das cidades brasileiras possuem apenas 0,4 profissionais na mesma proporção.

O conceito de judicialização da saúde ganhou destaque no encontro. De acordo com o palestrante, à medida que em 2004 foram destinados R$ 200 milhões para acatar decisões judiciais, em 2018 esse valor subiu para R$ 1,4 bilhões.

Em sua apresentação, o professor Carnielo indicou uma nova tendência existente na área da saúde: a manutenção de um atendimento primário visando menos internações e melhor qualidade de vida. “Se eu passo a cuidar das pessoas antes delas chegarem ao hospital, com os anos eu chego à diminuição da demanda e, consequentemente, de custos", afirmou o palestrante. Também foram mencionados exemplos de doenças, como diabetes e pneumonia, que, se recebessem assistência primária, seriam evitadas inúmeras internações, reduzindo os custos dos hospitais.

Na exposição, o professor mostrou aos presentes o conceito do movimento ‘choosing wisely’ (escolher sabiamente), que consiste em colocar o paciente como protagonista da sua própria saúde, evitando tratamentos excessivos. Sobre isso Carnielo afirmou: “No Brasil, sinônimo de tratamento efetivo é quando o médico pede vários exames. As pessoas associam essa prática a uma assistência de qualidade, quando, na verdade, o que o movimento propõe é o inverso, fazendo com que o paciente se pergunte se todos esses exames são realmente necessários”.

Ao tratar dos avanços tecnológicos, o professor reiterou que “falar de gestão de custos no século XXI é falar de tecnologia e inovação e o quanto isso irá impactar no dia a dia, ajudando a diminuir custos e melhorar a qualidade, além de alguns dos processos inovadores como a nanotecnologia, inteligência artificial e Data Science”, destacou ele.

Outro ponto analisado pelo palestrante foi a questão custo-efetiva das internações. Para Carnielo, 70% das internações cirúrgicas no Brasil são potencialmente evitáveis, graças ao desenvolvimento de novas drogas anestésicas e modernas técnicas cirurgias minimamente invasivas. O professor ainda declarou que “quanto mais se evitar que o paciente chegue ao hospital, maior é a redução de custos”, além de citar possíveis soluções como a facilitação do acesso ao sistema de saúde, o protagonismo do paciente e o fim da descontinuidade da assistência social.

Quanto à falta de centralização de informações do histórico médico do usuário, Carnielo apontou para a criação de um prontuário eletrônico no qual o médico passa a ter a informação geral sobre o paciente, fazendo com que o sistema de saúde passe a acompanhar esse indivíduo desde o nascimento até a morte.

Para reduzir o número de internações o professor propôs o método de “medicina baseada em evidências” e expôs sugestões de perguntas para guiar o profissional de saúde a definir o melhor diagnóstico e evitar internações excessivas. Para ele, o tratamento é sustentado por três pilares: a experiência do médico; as preferências do paciente; e as informações científicas disponíveis. Citou exemplos como a pneumonia, diabetes e cesárea.

Dentre as doenças apresentadas, foi ressaltada a importância do diagnóstico e acompanhamento do câncer para uma melhor gestão de custos. De acordo com o palestrante, foram registrados 14 milhões de novos casos em 2012 e a previsão para 2030 circula na casa de 21 milhões. Em um país onde um em cada quatro habitantes tem a tendência em desenvolver o câncer antes dos 70 anos, Carnielo aponta para a importância dos cuidados preventivos que podem evitar até 50% dos casos, reduzindo custos hospitalares.

Por fim, o professor concluiu que o acompanhamento do paciente ao longo da vida será de grande importância para a análise de gestão de custo populacional, tornando possível a avaliação e tomada de ações preventivas, resultando em uma população mais saudável e com custos reduzidos.

Confira a transmissão da palestra aqui